Kamila
Kamila, 33

Se eu morrer amanhã, por favor,

não leve-me flores. Você teve uma

vida inteira para isso. Também

não chore de saudade, não se não

tiver me buscado

verdadeiramente enquanto

podia. Se eu morrer amanhã,

peço: não se arrependa de não ter

me dito tudo que queria enquanto

meus ouvidos eram algo que não

pó. Se eu morrer amanhã - suplico

-, não toque minhas mãos frias,

não se nunca as tiver sentido

quentes. Se eu morrer amanhã

não pense em como seria se eu

estivesse vivo, pois eu já estive. E

passou. Se eu morrer amanhã, por

favor, não diga que me ama, nem

que "fui" importante. Eu já não

ouvirei isso. Chore, apenas se eu

lhe tiver sido bom, mas não chore

se não tiver sido comigo. Leia algo

meu se bater saudade, mas não

leia se nunca tiver lido. Veja fotos

minhas se isso fizer bem à

lembrança, mas não se arrependa

de nunca ter pousado junto a

mim. Se eu morrer amanhã, não

enlute, não se não tiver lutado

comigo. Se eu morrer amanhã, não

se surpreenda, morte é

consequência de estar vivo. Se,

por acaso, eu morrer amanhã, não

olhe profundo para mim -

dormido eternamente -, mas

lembre-se do meu derradeiro

olhar, do meu sorriso e das coisas

(boas ou ruins) que eu fiz, para,

por e com você. Se eu morrer

amanhã, lhe peço, não me queira

ver, não me queira escrever, não

me queira despedir... mas só

aceite, só respeite a ideia de que

serei silêncio profundo,

lembranças doídas e pó eterno e

entenda que o que fora feito, dito

ou vivido estará trancafiado num

tempo chamado passado que

debruça-se pouco a pouco no

esquecimento e que já não flui,

não volta, não muda, não vive, não

vê.

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